quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Educar para a diferença

Educar para a diferença é uma frase que está na moda mas que, na verdade, ainda não é muito posta em prática.

Sempre que falamos em alimentação vegan numa criança a primeira coisa que surge é o medo da diferença. Tal como muitos outros pais, quando o meu filho começou a escola, dei comigo a pensar que não queria que ele sofresse com as nossas opções, que não queria que ele se sentisse mal por ser diferente e não queria que os outros o fizessem sentir mal por ser diferente.

E este é o receio da grande maioria das pessoas quando sabem que uma criança tem uma alimentação ou um modo de vida que implica algumas diferenças em relação à maioria: a estigmatização da criança, o medo de não ser aceite, de não conseguir integrar-se, de ser rejeitada e incompreendida. 
Isto acontece porque, na verdade, vivemos numa sociedade que, apesar de todos os progressos que se vão fazendo, ainda lida muito mal com a diferença. Só há pouco tempo, por exemplo, é que começou a ser mais comum a integração de crianças com necessidades especiais nas turmas "normais". E isto ainda não é a regra em todas as escolas. Basta ver toda a polémica em torno da adopção de crianças por casais homossexuais, que ainda não somos capazes de aceitar enquanto sociedade, para se perceber que realmente lidamos muito mal com a diferença.

Principalmente quando essa diferença mexe com valores fundamentais da nossa visão do mundo. E o veganismo faz isso, porque, quando nos tornamos vegans, afirmamos que não precisamos de animais para viver, nem para nos vestirmos nem para nenhuma outra coisa em que eles são habitualmente usados. E afirmamos isso todos os dias simplesmente por escolhermos coisas diferentes para por no prato e coisas diferentes para vestirmos ou usarmos. E muitas pessoas sentem que, ao fazermos essas escolhas, de algum modo estamos a criticar as delas. E, como se costuma dizer, a melhor defesa é o ataque, o que quer dizer que, neste caso, muitas pessoas preferem atacar quem escolhe essa diferença como forma de não terem que entrar em contacto com o desconforto que sentem ao serem confrontadas com as suas opções.

Então, em primeiro lugar, é preciso perceber que o facto de não estarmos de acordo com algumas pessoas em certos aspectos, por muito importantes que estes sejam, não significa que estejamos a rejeitar essas pessoas.

Os meus valores e a minha consciência dizem-me que não é certo comer animais, que não é correcto usá-los para nosso benefício e conforto, muito menos da forma como são usados hoje em dia. Mas isto não significa que eu rejeite todas as pessoas que o fazem, não significa que, automaticamente, eu condene todas as pessoas que o fazem. Gostaria muito de viver num mundo onde todos pensassem da mesma forma que eu a respeito desta questão, gostaria mesmo muito que o meu filho pudesse crescer num mundo em que não fosse diariamente confrontado com a violência com que os animais são tratados. Mas, isto não significa que me sinta no direito de julgar as pessoas que não vêem as coisas deste modo, até porque eu própria já fui uma delas. Tenho esperança e quero acreditar que, no fundo, todas elas sabem que é importante mudar, no fundo de si próprias todas as pessoas sabem que é errado tratar os animais com a violência e o desrespeito com que os tratamos hoje em dia. Mas ainda não chegaram ao ponto em que são capazes de ser verdadeiras consigo próprias e com a sua consciência. E isto eu não tenho o direito de julgar, posso ter esperança que cheguem lá um dia e fazer o que estiver ao meu alcance para que esse dia chegue o mais depressa possível mas, até lá, isso não quer dizer que eu não as respeite, não as estime e não as possa aceitar tal como são.

Necessidade de pertença a um grupo

Na verdade todos nós temos uma necessidade intrínseca de pertencer a um grupo. Jonathan Haidt um psicólogo que se dedicou a estudar a área da psicologia moral afirma que o ser humano é parte macaco e parte abelha. Porque, em muitos aspectos, vivemos numa sociedade que só funciona enquanto todos colaborarmos e nos respeitarmos uns aos outros. Segundo este autor, nós não somos animais solitários, o ser humano, enquanto espécie, evoluiu como membro de um grupo e, por isso precisamos de nos sentir integrados e acolhidos para sermos felizes e nos sentirmos seguros e preenchidos. Para este psicólogo é esse um dos grandes benefícios da religião: dar-nos essa sensação de que pertencemos a algo maior do que nós mesmos, essa sensação que o nosso eu individual pode fazer parte de algo maior, mais profundo e mais intenso. É também isso que nos faz gostar de estar no estádio cheio de gente a torcer pela mesma equipa, ou num concerto por exemplo. Quando estamos no meio de uma multidão com objectivos comuns isso faz-nos esquecer temporariamente o nosso eu pequenino, sozinho e limitado e dá-nos uma sensação de sermos maiores, mais fortes, mais capazes e mais espaçosos. Por momentos cria-se a sensação de que somos o grupo todo e esse grupo é algo mais poderoso e intenso do que apenas a soma de todos os eus individuais que o constituem. Nas sociedades orientais, que são mais sacralizadas, está mais presente essa dimensão do grupo no dia a dia das pessoas. No ocidente valorizamos mais o indivíduo que o grupo e isso, por vezes, pode trazer-nos uma certa sensação de vazio por falta desse sentimento de pertença. 

Isto acontece mais facilmente quando estamos nestes grandes grupos mas também pode acontecer com uma prática de meditação, por exemplo. Alguns estudos mostram que as pessoas que vivem mais sozinhas têm mesmo uma esperança de vida significativamente mais reduzida. Isto demonstra a forma como precisamos realmente de nos sentir parte de um grupo, de uma comunidade.

Esta necessidade de pertença torna-se ainda mais presente na adolescência. Durante a infância, se tudo correr bem, o grupo a que a criança precisa de sentir que pertence são principalmente os seus pais, a sua família nuclear. É aqui que a criança começa a formar a sua identidade e é aqui que deve sentir-se primeiramente acolhida e aceite. Mas a adolescência é período em que a criança se prepara para formar uma identidade própria. A adolescência é a altura em que o jovem começa a ensaiar a sua partida para o mundo. É por isso que, nesta altura, os amigos começam a ter muito mais importância e o jovem começa a ter muito mais tendência para se querer vestir como os seus amigos, para querer fazer e gostar das mesmas coisas que eles. Porque esta é uma forma de o jovem sentir que pertence a uma comunidade, a um grupo, onde se sente acolhido e aceite. Então, nesta altura é muito natural que o jovem experimente desviar-se um pouco das regras da família, principalmente se estas forem muito diferentes das do grupo em que se insere. Porque é muito mais fácil sentir que pertencemos a um determinado grupo quando pensamos da mesma forma que as outras pessoas desse grupo, quando sabemos que temos a mesma visão do mundo.

Nesta altura é muito natural que o jovem queira experimentar vários papeis para ter a certeza daquele em que se insere. E, no caso de um jovem que tenha tido uma alimentação sempre vegetariana, nesta altura é possível que tenha alguma vontade de experimentar produtos animais. Até Gandhi, na sua biografia conta que passou por uma fase em que comia carne, às escondidas da sua mãe porque sabia que isto lhe daria um desgosto enorme se o soubesse. Mas, depois deste desvio e desta experiência, Gandhi descobriu porque é que era realmente importante ser vegetariano e, voltando aos valores fundamentais com que fora educado, percebeu que o respeito pelos animais era realmente uma parte importante do caminho da não-violência que começava a trilhar e a defender.

Então, tal como Gandhi experimentou comportamentos diferentes até encontrar aquele que estava de acordo com a sua verdadeira identidade, é natural que um jovem criado nesta sociedade como vegetariano tenha alguma necessidade de comer carne em algum momento da sua vida. Mas, se ficou lá a sementinha do respeito pela vida, também é muito natural que ele acabe por descobrir mais cedo ou mais tarde, que o seu papel na vida não precisa de passar pela violência contra os outros seres vivos.

Para isto também é importante que a relação com os pais tenha sido boa e que o jovem não tenha sentido que esta opção lhe foi simplesmente imposta sem diálogo e sem explicações. Uma criança que cresce com este sentimento de pertença à sua família é uma criança que se torna mais segura.
Quando esse sentimento de pertença não é preenchido em criança, é muito provável que acabemos por ter necessidade de o procurar noutros lados. E, se essa falta for muito grande, é mais fácil que a pessoa esteja disposta a sacrificar os seus valores e gostos individuais para se sentir integrada num determinado grupo. 

Uma criança que se sente respeitada e acolhida na sua família é uma criança que cresce a ser capaz de respeitar os outros e uma criança que está habituada a estar em contacto com os seus sentimentos e que está habituada a ver os seus sentimentos serem bem acolhidos e respeitados pelos pais também é uma criança que terá muito mais probabilidades de se manter fiel aos seus valores e à sua consciência.

Então para ter a coragem de ser diferente, o jovem tem que ter a certeza de quem é e tem que se sentir bem com esta sua identidade. E porque esta necessidade de pertença a um todo, a algo maior do que nós é real e importante também pode ser muito útil que a criança ou o jovem encontrem outras formas de sentir que pertencem a um grupo.

Por outro lado também pode ser útil treinarmos a nossa capacidade de perceber que, mesmo quando não estamos de acordo em alguns valores fundamentais, há muitas coisas que nos podem unir aos outros e há muitas formas de nos ligarmos às pessoas mesmo quando não partilham a nossa visão do mundo. Não precisamos de nos isolar e, se nós estivermos dispostos a mostrar que convivemos bem com a diferença, se o ensinarmos aos nossos filhos, será meio caminho andado para que os outros convivam bem connosco também.

E, na verdade, é  também muito importante ensinarmos aos nossos filhos que não precisamos todos de ver o mundo com as mesmas cores para podermos dar-nos bem e para nos respeitarmos. É importante que as crianças cresçam reconhecendo a sua própria necessidade de se integrarem e de pertencerem a um grupo mas sabendo também que não precisam de apagar a sua identidade individual para o fazerem. 

Afinal de contas esta intolerância e incapacidade de lidarmos com alguém cujos valores são muito diferentes dos nossos, juntamente com esta grande necessidade de pertença, estão na base de muitas guerras e vários problemas graves do nosso mundo.

Então acredito que darmos segurança aos nossos filhos e espaço para aprenderem a entrar em contacto com os seus sentimentos, mostrando-lhes que estes devem ser respeitados e acolhidos é o melhor caminho para criarmos adultos capazes de serem fieis aos seus valores e também de criarmos adultos capazes de respeitar todos os seres, percebendo que ser diferente não é ser melhor nem pior, é apenas ser diferente. Tal como os animais são diferentes das pessoas e não merecem menos respeito por isso.

O conformismo social 

Há alguns estudos interessantes que demonstram a forma como o ser humano tem necessidade de se sentir incluído. Nos anos 50, Asch fez umas experiências sobre conformismo social que ficaram célebres (ver aqui vídeo). Nestas experiências havia um sujeito que estava numa sala com várias pessoas sem saber que estas estavam combinadas com os investigadores. Estas pessoas viam uma série de linhas e tinham que dizer, em voz alta qual era que era igual à primeira. A resposta era óbvia mas tinha sido combinado que dariam todas a resposta errada. A grande maioria das pessoas que participou na experiência, começava por dar a resposta certa mas, ao fim de pouco tempo, acabava também por dar a resposta errada apenas para estar de acordo com os outros. Também acontecia que a pessoa se chegava mesmo a convencer mesmo que o grupo estava certo. Um aspecto interessante desta experiência é que, se a pessoa tivesse um aliado, que desse também a resposta certa, a grande maioria das pessoas já dava a resposta certa.

Uma outra experiência ainda mais extrema foi pensada por Stanley Migram e levada a cabo, com várias pessoas, de diferentes idades e estratos sociais, nos anos 60 e 70. Nesta experiência os voluntários estavam numa sala com um examinador enquanto viam através de um vidro uma terceira pessoa que acreditavam ser também um voluntário na experiência. Era-lhes dito que estavam a fazer uma experiência sobre a forma de aprendizagem da outra pessoa e iam fazer-lhe algumas perguntas. Cada vez que a pessoa errava a pergunta o analisador dizia ao voluntário para dar um choque à pessoa. E a voltagem dos choques ia aumentado sempre. Uma chocante maioria de 65% das pessoas, quando a ordem era dada pelo analisador, era capaz de dar choques até aos 450 voltes, uma voltagem que poderia provocar a morte das pessoas, mesmo quando a pessoa do outro lado gritava e se contorcia com dores. Ver aqui o vídeo

Estas eram pessoas normais e há quem use os resultados destas experiências para explicar o que aconteceu no tempo dos nazis, por exemplo, em que pessoas aparentemente normais foram capazes de cometer os actos mais hediondos. Porque estas experiências mostram como estamos dispostos a ignorar a nossa consciência e os nossos valores em nome deste sentimento de pertença e de integração. E mostram também que, se não estamos habituados a valorizar o que sentimos a ser responsáveis pelas nossas acções é muito mais mais fácil desresponsabilizarmos-nos dos nossos actos e fazermos coisas que podem prejudicar os outros, desde que sintamos que a culpa não é nossa.

Isto é também um dos aspectos que permite a manutenção daquilo a que Melanie Joy chama o sistema do carnismo. Porque nos permite sentir afastar a culpa de sabermos que somos todos os dias cúmplices do sofrimento de milhares de animais pelo mundo.

Então, para que isto não aconteça, é mesmo fundamental que sejamos capazes de ensinar os nossos filhos a serem responsáveis pelas suas escolhas, a estarem atentos aos seus sentimentos e a serem fieis à sua consciência e isto passa também pelo facto de serem capazes de ser diferentes. Porque é exactamente este tipo de conformismo que está na origem na perpetuação da forma como tratamos os animais hoje em dia. E é também este conformismo que está na origem de muitos problemas graves dos nossos dias.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Sem açúcar com afecto

Há uns tempos, quando estava na praia com o meu filho e ele brincava com outros meninos houve uma senhora que se ofereceu para ir buscar gelados para todos e lhe perguntou se ele também queria. Quando respondi que ele não comia gelados a senhora fez uma cara de tristeza como se tivesse acabado de lhe dizer que ele sofria de algum tipo de doença terminal. Não me esqueci desta cara e foi um episódio que me deixou a pensar. Até porque não foi a primeira vez que vi aparecer esta expressão na cara das pessoas que acontece principalmente quando vamos a festas de anos em que os outros miúdos se empanturram alegremente com todo o tipo de porcarias.

Desde que me tornei vegan consegui também eliminar de vez o açúcar da minha alimentação e, sempre fiz questão, de que este não estivesse presente na alimentação do meu filho (excepto pelo açúcar de coco que tem um índice glicémico muito baixo) o que não quer dizer que lhe faltem doces. Antes pelo contrário até, porque há inúmeras formas de se fazer doces sem usar açúcar: desde as várias geleias de cereais, passando por frutos secos como as tâmaras, por exemplo, até ao tal açúcar de coco.

No entanto, sempre que vamos a alguma festa, apesar de eu fazer questão de levar sempre algum doce que saiba que ele gosta para que possa ter alguma coisa boa para comer, há sempre alguém que fica com muita pena dele porque "o menino coitadinho não come doces". Na verdade ele come bolos, gelados e bolachas - às vezes, se calhar, até demais - porque é possível comer isso tudo vegan e sem açúcar mas, para estas pessoas, isso não chega porque não conseguem perceber que a experiência dele é diferente da delas.

Quando alguém fica com pena do meu filho porque não pode comer gelados ou bolos ou chocolates a torto e a direito penso que essas pessoas não têm noção de que estão a usar um mecanismo que, em psicologia, se chama projecção. Este é um mecanismo de defesa que consiste em projectar os nossos pensamentos, sentimentos, emoções, medos ou desejos inconscientes, noutra pessoa para que não tenhamos de encará-los como nossos. Isto quer dizer que, muito provavelmente uma parte dessas pessoas também sente pena de não poder comer tudo o que gostaria, porque faz mal ou porque engorda ou porque simplesmente se reprimem por outro motivo qualquer e essa pena é projectada no outro que, neste caso, acontece ser o meu filho.

Nós criamos uma ligação afectiva com a comida de acordo com a nossa experiência. Por exemplo, se os nossos avós nos davam um chocolate sempre que os íamos visitar é muito natural que essa experiência de comer o chocolate fique associada ao prazer de estar com eles e de nos sentirmos bem-vindos e bem recebidos. Ou se os nossos pais nos costumavam levar de vez em quando a algum lado onde comíamos um bolo ou um gelado especial, também é muito natural que essa situação e esse prazer de estar com os nossos pais e de sentir que gostam de nós fique associado ao prazer de comer o gelado ou bolo. Porque muitas vezes usamos a comida para mostrar o nosso afecto pelos outros.

A experiência de comer e de ser alimentado está muito ligada ao acto de ser cuidado: quando somos bebés precisamos de ter alguém a cuidar de nós, a alimentar-nos. E com a amamentação temos também a nossa primeira experiência de unir a alimentação ao prazer: o prazer físico de sentir esse alimento precioso mas também o prazer psicológico de sentirmos a nossa mãe cuidar de nós, o conforto de sentir esse contacto físico que, para um bebé, é fundamental, essa presença quente e acolhedora que é tão importante para a sobrevivência de um bebé como a alimentação. Então desde as nossas primeiras experiências que a alimentação fica associada a carinho, a cuidado, a amor, a afecto. E por isso acaba sempre também por estar ligada a uma forma de expressar cuidado e carinho.

Quando uma criança vai visitar os avós, por exemplo, é muito comum que estes tenham vontade de expressar o seu carinho e cuidado dando-lhe algum tipo de doce. E, numa espécie de ciclo, vamos aprendendo a associar estes momentos em que nos sentimos acarinhados e cuidados com esses pequenos gestos e sabores.

Então essas pessoas que ficam muito incomodadas com o meu filho quando pensam que não come doces também é muito possível que estejam a projectar nele uma certa falta de se sentirem cuidadas, acarinhadas.

Por outro lado, também estamos de certo modo programados para gostar de coisas doces. Na nossa natureza o gosto pelo doce é um gosto inato, ou seja, não precisa de ser adquirido. Por razões de sobrevivência talvez, as crianças nascem já uma tendência inata para gostarem de coisas doces. Porque antigamente, muitas vezes, não era garantido que tivéssemos acesso a todas as calorias de que necessitamos para sobreviver e os doces, geralmente, são boas fontes calóricas, por isso era importante garantirmos que, sempre que possível, os ingeríamos. Até porque não havia tanto perigo de os ingerirmos em excesso, uma vez que não eram tão abundantes como hoje em dia.

Por outro lado, para além das calorias, quando pensamos em coisas que são naturalmente doces encontramos apenas as frutas e pouco mais. E, as frutas são de facto algo fundamental para a nossa sobrevivência, do ponto de vista das calorias mas também das vitaminas e de tudo o que nos fornecem. São dos poucos alimentos cuja ingestão é mesmo fundamental para uma boa saúde e por isso a natureza procurou encontrar forma de garantir que teríamos vontade de as comer. E, a grande maioria das crianças quando começa a comer come mais facilmente a fruta do que qualquer outra coisa, a não ser que lhes viciemos desde logo o paladar com papas que vêm já assustadoramente carregadas de açúcar. O próprio leite materno, geralmente, tem um sabor bastante adocicado.
Além disso quando uma coisa é doce é menos provável que esteja estragada - as coisas estragadas normalmente sabem a azedo - por isso também não deverá representar perigo para a nossa sobrevivência. 

Acontece que, hoje em dia, temos acesso a todo o tipo de alimentos que, antigamente só muito raramente se encontravam. O açúcar refinado que hoje encontramos com uma naturalidade assustadora na nossa alimentação é uma invenção relativamente recente e nunca foi comido em tão grandes quantidades como as que se ingerem vulgarmente hoje em dia. Há estudos que mostram que esta substância - não posso chamar-lhe alimento porque o açúcar refinado é composto apenas de calorias vazias, ou seja, não tem nenhum elemento útil para a saúde do corpo - pode ser tão viciante como a cocaína, activando as mesmas zonas do cérebro.
Há muitas pessoas que fazem questão de me dizer que um bocadinho de açúcar não faz mal nenhum. Aqui é preciso ter noção de que, se falamos de açúcar não refinado, pode até não fazer mal comer um pouco muito de vez em quando mas nunca com a regularidade com que hoje em dia se consome, sobretudo em crianças pequenas. Acontece que, ainda por cima, nem sequer é esse o açúcar que encontramos na grande maioria dos casos.

Mas, de qualquer modo, essa questão do açúcar acaba por se tornar secundária na medida em que a grande maioria dos doces que encontramos com facilidade não são vegans e por isso, voltamos à questão inicial de uma criança que não cresceu com essas experiências não fazer esse tipo de associação e por isso, aquilo que ele associa a esses momentos de carinho e cuidado são comidas muito diferentes que podem perfeitamente ser saudáveis.