quinta-feira, 16 de julho de 2015

Amamentação Natural

Durante a maior parte da minha vida nunca me questionei de onde vinha o leite ou os iogurtes e queijos que me apareciam na mesa. Quando deixei de comer carne e peixe passei também a comprar leite e natas de soja (que, na altura, eram a única opção que conhecia) para fazer tudo mas, durante muito tempo, continuei a comer queijo e iogurtes de vaca sem me questionar muito sobre isso. Só quando me tornei mãe e o meu filho começou a ter muitos sintomas de intolerância ao leite de vaca (como já contei aqui) é que comecei a questionar o papel do leite de vaca na nossa alimentação e, ao mesmo tempo, comecei também a perceber todo o sofrimento e crueldade que estão envolvidos na indústria dos lacticínios. 

Até essa altura, como tantas outras pessoas, eu pensava simplesmente que as vacas davam leite e pronto. Hoje em dia tenho noção de como era absurdo esse pensamento mas, a verdade, é que não é fácil aprendermos a questionar aquilo que toda a vida temos dado como adquirido. A verdade é que está tão incutida esta ideia de que as vacas existem quase de propósito para nos dar leite que eu dou comigo, várias vezes, a explicar ao meu filho que isto não é bem assim. Não sei se é por causa dos desenhos animados, ou porque lhe dizem na escola, o que é certo é que várias vezes o meu filho me diz que as vacas "dão" leite e eu respondo sempre que é verdade, que as vacas têm leite para os filhotes delas, assim como eu tinha leite para ele quando era mais pequeno. Mas isto está de tal maneira incutido na nossa sociedade e em todo o seu discurso carnista que é difícil de combater, como mostra a conversa que tive com ele há dias. Estávamos a chegar à escola e eu abri o frigorífico para deixar o lanche dele. Lá dentro estava um pacote de leite de vaca e o meu filho olhou para ele e disse: "Este leite é de vaca. Vês? Tem uma vaca desenhada, diz leite de vaca." Eu confirmei que sim, que era leite de vaca e ele respondeu-me: "este leite é da C., a vaca deixou a C. beber o leite dela. A vaca foi simpática para a C." Na altura, para dizer a verdade, nem soube bem o que lhe responder a isto. Porque quero que ele perceba que não temos o direito de tirar o leite às vacas mas também ainda não acho que seja altura para lhe explicar todo o sofrimento que isso envolve. 

Então, uma das coisas que me parece importante clarificar e que me esforço por lhe transmitir, é que as vacas realmente têm leite, tal e qual como as mulheres têm para os filhos. Vivemos numa época em que nos parece mais natural beber leite de um animal de outra espécie, que nunca vimos nem conhecemos, trazido até nós num pacote depois de passar sabe-se lá porque processos, do que ver uma mãe a dar de mamar a um bebé ou criança no meio da rua. Infelizmente existem ainda muitos mitos, tabus e preconceitos acerca da amamentação que prejudicam muitos bebés e muitas mães, que acabam por recorrer a fórmulas artificiais, feitas com base em leites de outra espécie e que têm muito pouco de bom a oferecer à nossa. 

Por isso considero que faz todo o sentido falar de amamentação e de veganismo. Porque o que é natural é as mães darem de mamar aos filhos e não usarem biberões cheios de leite de outra espécie para os alimentar. E, se compreendermos que dar de mamar é um processo natural e simples, desde que não o compliquemos, podemos deixar em paz as vacas com o leite que produzem para os filhos delas e não para os nossos. Porque não temos o direito de promover o sofrimento de outro animal simplesmente porque achamos que é mais cómodo para nós ou que é essencial para a saúde dos nossos filhos quando, na verdade só os prejudica. 

As estatísticas mostram que, infelizmente, as mães que amamentam por mais de dois anos (o mínimo recomendado pela OMS) são muito poucas. Infelizmente a maior parte dessas mães pensa que pode suprimir essa falta recorrendo ao leite de vaca, o que não é bem verdade. O leite materno é perfeitamente adaptado às necessidades dos bebé e sabe-se que até vai mudando de composição à medida que a criança cresce, para se adequar ás suas necessidades. Há estudos que até já demonstraram que o leite que as mães produzem para os rapazes é diferente do das raparigas. 

Então há algumas coisas aqui que importa questionar:

Primeiro: As vacas, tal como as mulheres, só dão leite se tiverem crias. Por isso têm de ser inseminadas de forma que me parece bem desagradável e dolorosa, para irem tendo filhos. Mas, para que o leite possa ser todo para consumo humano não se podem deixar os filhotes mamar. Aqui há industriais que são, supostamente, um pouco mais humanos e podem deixar os filhotes mamar alguns dias mas, na maior parte dos casos, estes são imediatamente afastados das mães (que sofrem com a sua falta como se pode ver aqui) e, se forem fêmeas passam a fazer parte da indústria, se forem machos podem ser vendidos à indústria da carne ou mortos, como foi o caso dos vitelos dos Açores que foram incinerados durante muitos anos, simplesmente porque isso era o mais barato e porque se os vendessem para comer, seriam tantos, que o preço da carne desceria demasiado para os produtores. 

E, porque uma cria a mamar é mais eficaz que uma máquina, tal como acontece nas mulheres, as vacas precisam de ser repetidamente engravidadas para poderem continuar a dar leite porque se não este acaba-se com alguma rapidez. 

Depois de ultrapassada a questão da violência e dos vários abusos que existem na indústria do leite -que basta pesquisar um pouco para se concluir que existem - algumas pessoas dizem que se tiverem vacas e as tratarem bem, então, não faz mal nenhum tirar leite e elas até agradecem porque se não podem ter mastites ou outros problemas. Eu não percebo grande coisa de vacas mas percebo alguma coisa do processo de amamentação nas mulheres e sei que essa ideia de que é preciso andar sempre a tirar leite é justamente o que está na base de muitas mastites que levam muitas mães a desistir de amamentar. Porque a produção é regulada em função daquilo que o bebé mama, por isso, se andamos sempre a tirar leite o corpo pensa que precisa de produzir muito mais leite do aquele que é necessário e, porque tirar leite com máquina nunca é tão eficaz como por um bebé a mamar, isso pode levar ao entupimento de alguns ductos e causar mastites. 

Na verdade, basta pensarmos um pouco, que sentido faria a natureza criar um animal que precisasse da nossa ajuda num processo tão básico e tão natural como a amamentação? É verdade que as vacas da indústria leiteira já passaram por alguma selecção para que produzam mais leite do que aquele que seria de esperar, ainda assim, quando muito, nesses casos admito que talvez pudesse ser necessário aliviar um pouco o seu desconforto, muito esporadicamente, deixando sair apenas algumas gotas em caso de engurgitamento. Tal e qual como se recomenda nas mulheres, sendo que, também nestes casos o melhor remédio para uma mastite é mesmo por o bebé a mamar o máximo possível, ao contrário daquilo que tantas vezes se pensa e recomenda. 

Neste processo, como em alguns outros ligados ao nascimento e cuidado das crianças, acredito que nos esquecemos do que é natural. Por isso confiamos mais no leite artificial, feito pela indústria com base no sofrimento das vacas, do que no nosso próprio corpo e caímos nos mitos do leite fraco, coisa que se sabe que não existe. Estou neste momento a ler um livro que conta a história de três bebés que nasceram em Auschwitz, nos campos de extermínio nazi e um dos aspectos impressionantes da sua sobrevivência é que foi o leite das suas mães, altamente sub-nutridas, que lhes permitiu viver. No caso dessas mães, o organismo delas, sub-nutrido por anos de fome e outras privações extremas, conseguiu, ainda assim, reunir todas as condições necessárias para alimentar e dar vida àqueles bebés. Uma delas conta que ficou mesmo com problemas graves nos ossos porque o corpo foi buscar-lhes todo o cálcio que podia para produzir esse leite. Isso mostra como o corpo humano é sábio e competente. E como não existem leites fracos, o leite materno é sempre o melhor alimento para um bebé. 

Quando houve o terramoto no Nepal, o governo nepalês emitiu mesmo um pedido para que não fosse enviada nenhuma ajuda alimentar para crianças com menos de dois anos. Isto porque, nestas alturas, é comum que os países mais ricos desatem a enviar biberões e fórmulas infantis que as pessoas acabam por acreditar que são melhores para os seus bebés do que o próprio leite das mães (justamente porque estas estão a passar fome) e isto acaba sempre por estar na origem de muitas mortes. Primeiro porque o leite de fórmula será sempre indiscutivelmente mais pobre em termos de nutrientes e depois porque, preparado em condições de higiene mínimas pode provocar diarreias que, mais uma vez o leite materno seria a melhor forma de combater. 

Quando se fala de veganismo também está muito presente a ideia de que as crianças, pelo menos, precisam de cálcio e têm de ir buscá-lo ao leite. É verdade que as crianças precisam de cálcio e, apesar deste poder ser encontrado em todos os vegetais de folhas verdes (e esta é mesmo a melhor fonte de cálcio depois do desmame), acredito que a melhor fonte de cálcio nos primeiros dois anos é o leite. Mas é o leito materno e não das vacas. Por isso mesmo é que a OMS recomenda que a amamentação dure pelo menos dois anos, não só por causa do cálcio mas também por todos os benefícios que se sabe que o leite materno tem para o sistema imunitário da criança, ainda em formação e para o qual o das vacas nada contribui, antes pelo contrário. 

Mas depois desses dois anos as crianças ainda podem continuar a mamar. Dependendo dos critérios que quisermos usar ou analisar a idade natural do desmame para a nossa espécie anda entre os 2,5 e os 7 anos de idade. Então é importante que comecemos a fomentar a ideia de que é naturalíssimo uma criança de dois ou três anos mamar. Mais natural do que carregar pacotes de leite do supermercado. E mais saudável, mais ecológico e muito mais barato. 

E depois não precisamos de ter medo que as crianças nunca mais larguem a mama porque, melhor do que ninguém, elas sabem quando fazê-lo. Nenhuma criança quer mamar para sempre, se lhes dermos tempo e espaço elas acabam por parar sozinhas, sem pressões, sem stresses e sem traumas. E não faz mal nenhum uma criança mamar até mais tarde. A amamentação não é só alimento, é também conforto, carinho, segurança, proximidade. E essas coisas nunca são demais. Nenhuma criança fica traumatizada por mamar até tarde, ao contrário do que muitos psicólogos defendem mas muitas ficam traumatizadas por falta de carinho e acolhimento.

Quando comecei a informar-me e a ler mais sobre amamentação senti o mesmo que senti depois com o veganismo: não podemos acreditar em todos os mitos que nos vendem. Precisamos de procurar informação e de pensar pela nossa cabeça. Há muitos mitos em relação ao veganismo e também há muitos mitos em relação à amamentação: o mito do leite fraco, o mito de que a criança vai ficar traumatizada se mamar até tarde, o mito de que temos que as obrigar a parar de mamar, o mito de que o leite da mãe só não chega, o mito de que o leite acaba de um dia para o outro, o mito de que nem todas as mães têm leite. Tudo isto são mitos que foram muito alimentados pelos médicos e pela indústria sobretudo nos anos 60 e 70 mas que, felizmente, têm vindo cada mais vez a ser desconstruídos. 

Em relação a estes dois últimos resta só dizer que o leite da mãe é sempre suficiente, pode haver alturas em que o bebé tenha dificuldade em mamar ou não esteja a fazer uma boa pega mas isso resolve-se com o apoio de uma CAM (conselheira de amamentação). O que acontece é que vivemos tão desligados dos instintos que já nem sabemos ajudar os bebés a seguirem os seus. E todos os processos não naturais do parto e intervenções que se lhe seguem também contribuem muito para bloquear os instintos do bebé e isso pode criar muitas dificuldades na amamentação. Às vezes os bebés têm muita dificuldade em mamar e precisam mesmo de ser ajudados mas isto não quer dizer que a mãe não tenha leite ou que tem pouco. Infelizmente os médicos são os primeiros a desistir e a incentivar o biberão e nestes casos a mãe nem tem possibilidade de perceber que o problema não era seu. E vivemos uma altura em que, muitas de nós, tiveram mães que não conseguiram amamentar e que ainda ajudam a perpetuar estes mitos. 

E o leite também não se acaba nunca de um dia para o outro. Pode parecer que sim porque nem sempre conseguimos extraí-lo quando precisamos. Muitas mães que dão de mamar durante anos não conseguem tirar nem uma gota com as bombas, justamente, porque produzir leite não é um processo puramente mecânico e, muitas vezes, só a presença do bebé é que dá início a essa produção. Muitas mães pensam que ficaram sem leite porque o peito parece vazio e deixa de estar inchado mas isto acontece porque, a partir de certa altura, a produção estabiliza e o corpo passa a produzir só quando o bebé vem à mama e deixa de armazenar. Mesmo quando uma mulher pára de amamentar é comum que ainda tenha leite durante vários meses. 

Outra ideia comum é a de que nem todas as mulheres têm leite mas isto também não é verdade. Salvo algum problema grave (que geralmente também impede a gravidez) todas as mulheres podem produzir leite (a menos que tenham feito operações ao peito que tenham comprometido os ductos). Isto é tão verdade que até existem vários casos de mães adoptivas, que nunca engravidaram, e conseguem produzir leite e amamentar os seus filhos. 

Basta pensarmos um pouco, se a espécie humana tivesse dependido desde sempre das vacas para alimentar as suas crias, há muito que estávamos extintos,  porque só há relativamente pouco tempo é que o leite passou a ser um alimento assim tão acessível. Assim como as vacas também já se teriam extinguido há muito tempo se também estivesse dependentes de nós para lhes tirar leite e não terem infecções. 

Então aquilo que, enquanto sociedade, precisamos urgentemente de fazer é normalizar ao máximo a amamentação, confiar no nosso corpo e nos nossos instintos, deixar os fantasmas de lado, perder os medos e ignorar os mitos. Precisamos de encarar com normalidade a amamentação tanto nos bebés como nas crianças e é preciso que nos habituemos a ver crianças mamar, a saber que isso é natural e que faz parte. As mães que amamentam crianças um pouco mais crescidas sabem que são mal vistas se o fizerem no meio da rua mas ninguém se incomoda quando vê uma criança ou adulto a beber um copo de leite ou a comer um iogurte. Eu quero que o meu filho cresça num mundo onde o amor e o carinho que estão envolvidos no acto de amamentar um filho sejam algo natural e onde toda a violência escondida no copo de leite ou num pedaço de queijo seja cada vez mais vista como repugnante e desnecessária. Porque dar de mamar é natural e é amar, acarinhar e dar amor e roubar leite a outra espécie que violentamos diariamente por causa do nosso egoísmo é um acto de violência a que precisamos de por fim. 

Quero que o meu filho cresça num mundo onde uma criança de dois, três, quatro ou seis anos pode mamar à vontade sem que ninguém ache estranho ou inadequado e onde o estranho passe a ser a violência e a agressividade a que submetemos diariamente todos os animais deste mundo apenas por ignorância. Por isso este é um tema de que não me canso de falar e um tema que acho que é fundamental discutir, debater e esclarecer. Para que haja cada vez menos mitos. Porque se todas as mães conseguirem dar de mamar até mais tarde, ganham os bebés que ficam com uma saúde muito melhor, ganham as mães que se sentem mais capazes, competentes e ficam com mais oxitocina que atá já se sabe que pode prevenir a depressão pós-parto, ganham as vacas porque podemos deixá-las em paz e ganha o planeta porque podemos reduzir muito toda a poluição associada à indústria do leite. 

( Ler outro texto que escrevi sobre este tema: aqui

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Empatia e sofrimento

Há coisas sobre as quais me custa escrever porque quase me quero recusar a acreditar que ainda existem. As touradas são uma delas. Mas, infelizmente, tivemos ontem mais um desses tristes espectáculos na nossa televisão pública, pago com o dinheiro dos nossos impostos, e que me deixou a pensar em algumas coisas. 

Nem vale a pena entrar em grandes discussões sobre se os toros sofrem ou não. Se olharmos bem, para dentro do nosso coração, todos sabemos bem que sim. Claro que sim, todos os animais sentem dor, medo, receio. Todos sem excepção, por muito grandes ou majestosos que nos pareçam. Então o que é falta para que as pessoas que gostam de tourada o percebam? Sinceramente não sei. Falta-lhes provavelmente a capacidade de entrarem em contacto com as suas próprias emoções. 

A empatia é uma característica essencial para qualquer ser humano. Sentir empatia é o que nos permite sermos capazes de estar no lugar do outro. Sentir empatia permite-nos, durante alguns instantes, sentir aquilo que outra pessoa sente, ou outro animal, neste caso. Alguns investigadores descobriram que temos aquilo a que chamaram neurónios espelho, que estão na base da nossa capacidade de sentir empatia. Estes neurónios são neurónios que se acendem em função daquilo que vemos os outros fazer ou que ouvimos dizer. Por exemplo, se alguém nos está a contar uma história de grande sofrimento estamos verdadeiramente disponíveis e a ouvir essa pessoa, é possível que, no nosso cérebro, se acendam as partes que correspondem a esse sofrimento, fazendo com que nós também sejamos capazes de o sentir. E a ciência também descobriu que, no nosso cérebro, a dor física e a dor psicológica têm muitas semelhanças e produzem resultados muito idênticos

Isto quer dizer então que temos, dentro de nós, até de um ponto de vista fisiológico, uma certa tendência para não querer que os outros sofram e para querer o seu bem. Porque, quando tudo está bem e estamos ligados aos nossos instintos, sofremos com o sofrimento dos outros. E porque os nossos neurónios espelho também podem activar-se em resposta à felicidade dos outros, fazendo com nos sintamos felizes com a sua felicidade. 

Então, naturalmente a empatia é algo que faz com que tenhamos vontade de tratar bem os outros, de os ver bem e felizes. E a capacidade de sentir empatia faz-nos sofrer quando vemos o sofrimento dos outros. 

Então, porque é que as pessoas na tourada não sofrem quando vêem o touro sofrer? 

Porque, a partir do momento em que lhe é infligida dor física, tem de ser inquestionável esse sofrimento. A partir do momento em que o animal está a ser encurralado, provocado e atacado, ainda por cima em frente a uma multidão ruidosa, com luzes, barulho e tudo aquilo a que ele não está habituado e que nunca encontraria no seu ambiente natural, tem de ser reconhecido que existe sofrimento. Não é realista pensar que um touro não sofre na tourada porque, nesse caso, a evolução natural da espécie também não faria sentido nenhum. Um animal tem que ter um instinto de protecção, sem ele nunca saberia defender-se na natureza. Se um animal nascesse sem medo, isso significava que não saberia proteger-se e a selecção natural faz demasiado sentido para que isso possa acontecer. O medo é o que nos faz procurar protecção e pode servir para nos salvar a vida. Já ouvi defensores da tourada dizerem que o touro não tem predadores por isso não precisa de ter medo, mas tem: tem as pessoas. Infelizmente os touros têm predadores há muito tempo e, infelizmente, esses predadores somos nós. O facto de um touro atacar quando se sente atacado não quer dizer que não tenha medo. Quando as pessoas gritam ou batem em alguém que as ataca, não quer dizer que não estejam cheias de medo. Quer dizer apenas que, naquela altura, não somos capazes de encontrar outra solução. 

Mas, na verdade isso nem é importante. Porque nem precisamos de saber se um animal está a sofrer de verdade ou não para sentir compaixão por ele. Porque a empatia e a compaixão têm de ser instintivas. A empatia e a compaixão não dependem destas racionalizações e não dependem da nossa capacidade de esgrimir argumentos sobre se um bicho está ou não a sofrer quando é atacado. A empatia é algo que se sente não algo que se pensa. 
Por isso o importante é perceber o que é que impede os aficionados de sentirem empatia pelo touro? 

Alguns estudos mostram que sentimos mais facilmente empatia pelas pessoas com quem nos identificamos. É mais fácil sentir empatia por alguém que conheço e com quem tenho uma ligação ou com alguém que sinto ser igual a mim. Esta é uma das razões pelas quais acontecem tantas guerras: porque é mais fácil ignorar o sofrimento daqueles que sinto serem muito diferentes de mim. Na verdade isto foi altamente explorado pelos nazis ao tentarem convencer as pessoas que os judeus, e não só, eram muito diferentes delas, impedindo-as assim de sentir empatia por eles. Não podemos dizer que todos os alemães ou todos aqueles que não fizeram nada para impedir o holocausto eram maus. Assim como não podemos dizer que todos os que vão ou gostam de touradas são maus. 

Mas então o que acontece com essas pessoas que as impede de se ligarem a esse sofrimento que é tão visível? 

Não sei se alguma vez foi feito algum estudo para caracterizar as pessoas que gostam de touradas mas seria interessante que o fizessem, pois acredito que poderia explicar muita coisa. 

Por um lado, provavelmente, há nessas pessoas uma tendência para a racionalização excessiva. E é a racionalização que nos impede de sentir e que pode servir de bloqueio à empatia. 

Por outro lado, provavelmente, há uma incapacidade de encontrarem algum tipo de ligação com os touros. Muitos nazis tinham filhos e seriam incapazes de os ver sofrer, por exemplo. Mas, quando estavam perante o sofrimento dos judeus, crianças incluídas, faziam esta categorização que os impedia de os verem como pessoas iguais a si e que, por isso, sofriam o mesmo. Do mesmo modo também os brancos que tinham escravos e os castigavam só conseguiam fazê-lo porque se sentiam muito diferentes deles, porque eram capazes de os colocar numa categoria à parte de não-pessoas, que não sentiam as coisas do mesmo modo que eles e por isso os seus neurónios espelho não eram activados com esse sofrimento. 

Se é possível fazer isto com as pessoas ainda mais fácil será fazê-lo com animais. Fazemos menos isso com cães e gatos porque vivemos com eles diariamente, estabelecemos ligações e é mais fácil estabelecer aí uma ponte com eles. Mas é mais difícil com outros bichos, mais distantes que sempre nos habituámos a ver como estando numa espécie de categoria à parte. 

Mas, na verdade, enquanto não formos capazes de estender a nossa empatia a todos os seres, mesmo aqueles que nos parecem mais diferentes e enquanto não nos mentalizarmos que, em alguma parte de nós, temos muitas coisas em comum com todas as pessoas e com todos os animais, como a sensação de medo e o instinto de protecção, por exemplo, então haverá muito pouca esperança de que acabem os conflitos no mundo. 

Enquanto insistirmos que temos o direito de nos divertir com o sofrimento de outro ser, então precisaremos sempre de nos refugiar na racionalização e de negar a nossa capacidade de sentir empatia. Porque se não o fizermos não seremos capazes de ver um bicho a sofrer e, não só não fazer nada, como ainda achar piada. Se não fizermos isso, se não desligarmos a nossa parte que sente e não bloquearmos a nossa capacidade natural de sentir empatia e de nos ligarmos ao coração dos outros sejam animais ou pessoas, então é impossível assistir serenamente a um espectáculo desses. 

Não sei se alguma vez se fizeram estudos sobre o impacto das touradas na sociedade mas acredito que esse vai muito para além do sofrimento que causam aos animais. Porque numa tourada não é só o touro que sofre, numa tourada sofrem os nossos instintos mais básicos de nos ligarmos a outro ser. Quando só somos capazes de sentir empatia por quem julgamos ser igual a nós a nossa vida também fica mais pobre porque se nos desligamos do sofrimento dos outros também nos desligamos da sua felicidade

E quem não perde essa capacidade pode ser feliz com a felicidade dos outros, pode ser feliz por ver um animal livre, na sua vida, sem sofrimento infligido propositadamente. Na verdade, quem consegue não perder essa ligação ao coração dos outros tem muito mais oportunidades de estar bem, de estar feliz, porque a felicidade passa por criarmos relações de harmonia, não de violência ou de agressão. A felicidade passa por encontrarmos formas de estarmos todos juntos nesta terra sem violências desnecessárias, sem desrespeitar a liberdade dos outros.  A felicidade verdadeira vem de nos sabermos mais iguais do que diferentes, de reconhecermos que, mesmo nos olhos de quem nos parece tão diferente como um touro bravo, há um coração, há um sentimento de estar vivo e um instinto de querer estar bem e a felicidade vem de reconhecermos que respeitar esse instinto é respeitar o nosso instinto também. O nosso instinto de construir vidas mais felizes e respeitadoras para todos. 

Porque a verdadeira felicidade vem de sermos capazes de escutar o coração e nunca será possível fazê-lo enquanto nos recusarmos a ver o sofrimento que existe mesmo defronte dos nossos olhos. A ciência mostra cada vez mais que já nascemos programados para estabelecer relações, existem estudos que demonstram que a solidão aumenta cerca de 50% as probabilidades de sofrermos um ataque cardíaco, porque o homem é um animal social. Porque precisamos dos outros para nos sentirmos bem, para sermos felizes. Mas a única forma de não nos sentirmos sozinhos é perdemos o medo de abrir o coração e de estabelecer pontes para outros corações e isso só é possível se não precisarmos de bloquear o nosso coração, se não tivermos medo de sentir empatia mesmo por aqueles que parecem tão diferentes de nós. 

Nunca poderemos ser felizes enquanto nos recusarmos a sentir empatia e a ver o sofrimento que existe mesmo diante dos nossos olhos.