sexta-feira, 3 de julho de 2015

Empatia e sofrimento

Há coisas sobre as quais me custa escrever porque quase me quero recusar a acreditar que ainda existem. As touradas são uma delas. Mas, infelizmente, tivemos ontem mais um desses tristes espectáculos na nossa televisão pública, pago com o dinheiro dos nossos impostos, e que me deixou a pensar em algumas coisas. 

Nem vale a pena entrar em grandes discussões sobre se os toros sofrem ou não. Se olharmos bem, para dentro do nosso coração, todos sabemos bem que sim. Claro que sim, todos os animais sentem dor, medo, receio. Todos sem excepção, por muito grandes ou majestosos que nos pareçam. Então o que é falta para que as pessoas que gostam de tourada o percebam? Sinceramente não sei. Falta-lhes provavelmente a capacidade de entrarem em contacto com as suas próprias emoções. 

A empatia é uma característica essencial para qualquer ser humano. Sentir empatia é o que nos permite sermos capazes de estar no lugar do outro. Sentir empatia permite-nos, durante alguns instantes, sentir aquilo que outra pessoa sente, ou outro animal, neste caso. Alguns investigadores descobriram que temos aquilo a que chamaram neurónios espelho, que estão na base da nossa capacidade de sentir empatia. Estes neurónios são neurónios que se acendem em função daquilo que vemos os outros fazer ou que ouvimos dizer. Por exemplo, se alguém nos está a contar uma história de grande sofrimento estamos verdadeiramente disponíveis e a ouvir essa pessoa, é possível que, no nosso cérebro, se acendam as partes que correspondem a esse sofrimento, fazendo com que nós também sejamos capazes de o sentir. E a ciência também descobriu que, no nosso cérebro, a dor física e a dor psicológica têm muitas semelhanças e produzem resultados muito idênticos

Isto quer dizer então que temos, dentro de nós, até de um ponto de vista fisiológico, uma certa tendência para não querer que os outros sofram e para querer o seu bem. Porque, quando tudo está bem e estamos ligados aos nossos instintos, sofremos com o sofrimento dos outros. E porque os nossos neurónios espelho também podem activar-se em resposta à felicidade dos outros, fazendo com nos sintamos felizes com a sua felicidade. 

Então, naturalmente a empatia é algo que faz com que tenhamos vontade de tratar bem os outros, de os ver bem e felizes. E a capacidade de sentir empatia faz-nos sofrer quando vemos o sofrimento dos outros. 

Então, porque é que as pessoas na tourada não sofrem quando vêem o touro sofrer? 

Porque, a partir do momento em que lhe é infligida dor física, tem de ser inquestionável esse sofrimento. A partir do momento em que o animal está a ser encurralado, provocado e atacado, ainda por cima em frente a uma multidão ruidosa, com luzes, barulho e tudo aquilo a que ele não está habituado e que nunca encontraria no seu ambiente natural, tem de ser reconhecido que existe sofrimento. Não é realista pensar que um touro não sofre na tourada porque, nesse caso, a evolução natural da espécie também não faria sentido nenhum. Um animal tem que ter um instinto de protecção, sem ele nunca saberia defender-se na natureza. Se um animal nascesse sem medo, isso significava que não saberia proteger-se e a selecção natural faz demasiado sentido para que isso possa acontecer. O medo é o que nos faz procurar protecção e pode servir para nos salvar a vida. Já ouvi defensores da tourada dizerem que o touro não tem predadores por isso não precisa de ter medo, mas tem: tem as pessoas. Infelizmente os touros têm predadores há muito tempo e, infelizmente, esses predadores somos nós. O facto de um touro atacar quando se sente atacado não quer dizer que não tenha medo. Quando as pessoas gritam ou batem em alguém que as ataca, não quer dizer que não estejam cheias de medo. Quer dizer apenas que, naquela altura, não somos capazes de encontrar outra solução. 

Mas, na verdade isso nem é importante. Porque nem precisamos de saber se um animal está a sofrer de verdade ou não para sentir compaixão por ele. Porque a empatia e a compaixão têm de ser instintivas. A empatia e a compaixão não dependem destas racionalizações e não dependem da nossa capacidade de esgrimir argumentos sobre se um bicho está ou não a sofrer quando é atacado. A empatia é algo que se sente não algo que se pensa. 
Por isso o importante é perceber o que é que impede os aficionados de sentirem empatia pelo touro? 

Alguns estudos mostram que sentimos mais facilmente empatia pelas pessoas com quem nos identificamos. É mais fácil sentir empatia por alguém que conheço e com quem tenho uma ligação ou com alguém que sinto ser igual a mim. Esta é uma das razões pelas quais acontecem tantas guerras: porque é mais fácil ignorar o sofrimento daqueles que sinto serem muito diferentes de mim. Na verdade isto foi altamente explorado pelos nazis ao tentarem convencer as pessoas que os judeus, e não só, eram muito diferentes delas, impedindo-as assim de sentir empatia por eles. Não podemos dizer que todos os alemães ou todos aqueles que não fizeram nada para impedir o holocausto eram maus. Assim como não podemos dizer que todos os que vão ou gostam de touradas são maus. 

Mas então o que acontece com essas pessoas que as impede de se ligarem a esse sofrimento que é tão visível? 

Não sei se alguma vez foi feito algum estudo para caracterizar as pessoas que gostam de touradas mas seria interessante que o fizessem, pois acredito que poderia explicar muita coisa. 

Por um lado, provavelmente, há nessas pessoas uma tendência para a racionalização excessiva. E é a racionalização que nos impede de sentir e que pode servir de bloqueio à empatia. 

Por outro lado, provavelmente, há uma incapacidade de encontrarem algum tipo de ligação com os touros. Muitos nazis tinham filhos e seriam incapazes de os ver sofrer, por exemplo. Mas, quando estavam perante o sofrimento dos judeus, crianças incluídas, faziam esta categorização que os impedia de os verem como pessoas iguais a si e que, por isso, sofriam o mesmo. Do mesmo modo também os brancos que tinham escravos e os castigavam só conseguiam fazê-lo porque se sentiam muito diferentes deles, porque eram capazes de os colocar numa categoria à parte de não-pessoas, que não sentiam as coisas do mesmo modo que eles e por isso os seus neurónios espelho não eram activados com esse sofrimento. 

Se é possível fazer isto com as pessoas ainda mais fácil será fazê-lo com animais. Fazemos menos isso com cães e gatos porque vivemos com eles diariamente, estabelecemos ligações e é mais fácil estabelecer aí uma ponte com eles. Mas é mais difícil com outros bichos, mais distantes que sempre nos habituámos a ver como estando numa espécie de categoria à parte. 

Mas, na verdade, enquanto não formos capazes de estender a nossa empatia a todos os seres, mesmo aqueles que nos parecem mais diferentes e enquanto não nos mentalizarmos que, em alguma parte de nós, temos muitas coisas em comum com todas as pessoas e com todos os animais, como a sensação de medo e o instinto de protecção, por exemplo, então haverá muito pouca esperança de que acabem os conflitos no mundo. 

Enquanto insistirmos que temos o direito de nos divertir com o sofrimento de outro ser, então precisaremos sempre de nos refugiar na racionalização e de negar a nossa capacidade de sentir empatia. Porque se não o fizermos não seremos capazes de ver um bicho a sofrer e, não só não fazer nada, como ainda achar piada. Se não fizermos isso, se não desligarmos a nossa parte que sente e não bloquearmos a nossa capacidade natural de sentir empatia e de nos ligarmos ao coração dos outros sejam animais ou pessoas, então é impossível assistir serenamente a um espectáculo desses. 

Não sei se alguma vez se fizeram estudos sobre o impacto das touradas na sociedade mas acredito que esse vai muito para além do sofrimento que causam aos animais. Porque numa tourada não é só o touro que sofre, numa tourada sofrem os nossos instintos mais básicos de nos ligarmos a outro ser. Quando só somos capazes de sentir empatia por quem julgamos ser igual a nós a nossa vida também fica mais pobre porque se nos desligamos do sofrimento dos outros também nos desligamos da sua felicidade

E quem não perde essa capacidade pode ser feliz com a felicidade dos outros, pode ser feliz por ver um animal livre, na sua vida, sem sofrimento infligido propositadamente. Na verdade, quem consegue não perder essa ligação ao coração dos outros tem muito mais oportunidades de estar bem, de estar feliz, porque a felicidade passa por criarmos relações de harmonia, não de violência ou de agressão. A felicidade passa por encontrarmos formas de estarmos todos juntos nesta terra sem violências desnecessárias, sem desrespeitar a liberdade dos outros.  A felicidade verdadeira vem de nos sabermos mais iguais do que diferentes, de reconhecermos que, mesmo nos olhos de quem nos parece tão diferente como um touro bravo, há um coração, há um sentimento de estar vivo e um instinto de querer estar bem e a felicidade vem de reconhecermos que respeitar esse instinto é respeitar o nosso instinto também. O nosso instinto de construir vidas mais felizes e respeitadoras para todos. 

Porque a verdadeira felicidade vem de sermos capazes de escutar o coração e nunca será possível fazê-lo enquanto nos recusarmos a ver o sofrimento que existe mesmo defronte dos nossos olhos. A ciência mostra cada vez mais que já nascemos programados para estabelecer relações, existem estudos que demonstram que a solidão aumenta cerca de 50% as probabilidades de sofrermos um ataque cardíaco, porque o homem é um animal social. Porque precisamos dos outros para nos sentirmos bem, para sermos felizes. Mas a única forma de não nos sentirmos sozinhos é perdemos o medo de abrir o coração e de estabelecer pontes para outros corações e isso só é possível se não precisarmos de bloquear o nosso coração, se não tivermos medo de sentir empatia mesmo por aqueles que parecem tão diferentes de nós. 

Nunca poderemos ser felizes enquanto nos recusarmos a sentir empatia e a ver o sofrimento que existe mesmo diante dos nossos olhos. 

1 comentário:

  1. Basta que nos colocássemos, por um único segundo, no lugar do touro, ou de qualquer ser que sofre.
    Um abraço carinhoso e parabéns pelo lindo texto.

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